Quem sou eu?

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Nasci em uma manhã de janeiro de 1963, na cidade de Camaquã – RS. Desde os 11 (onze) meses de idade, passei a residir em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Sétima filha de uma prole de oito, tive em meus pais e irmãos mais velhos o exemplo de que honestidade e estudo seriam os únicos caminhos a seguir.

Meu saudoso pai, Manoel Garcez dos Santos, não teve oportunidade de frequentar escola regular, pois ficou órfão de pai muito cedo e, sendo ele o filho homem mais velho, teve que assumir o sustento familiar. Nem assim desistiu. Estudava por correspondência, lia enquanto trabalhava, aos 14 (quatorze) anos de idade, como auxiliar de cozinha.

Esse esforço não foi em vão. Logo conseguiu emprego no antigo Banco da Província, atual Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde trabalhou até sua aposentadoria. Era um homem extremamente inteligente. Recordo que me divertia vendo ele fazer contas de multiplicação de cabeça, não importando quanto dígitos tivessem.

Minha mãe, Selene Campos dos Santos, também não teve muita oportunidade de estudar, mas fazia questão de corrigir nossas tarefas de escola, cobrava notas boas e não se descuidava de ter certeza que não estávamos deixando os estudos de lado. Conta ela, até hoje, que os planos do casal era deixar aos filhos como herança o estudo. Um diploma para cada filho, sonhavam eles. E realizaram seus sonhos.

Ao findar o curso de Direito, resolvi sair do Rio Grande do Sul e tentar a vida em Mato Grosso. Escolhi Rondonópolis, onde já residia e trabalhava meu irmão mais velho, Leon, médico obstetra e ginecologista.

Viemos para Rondonópolis, meu marido Norberto e eu, em março de 1986, poucos dias antes do nascimento de nossa primeira filha, Carolina. Norberto seguiu carreira na Polícia Rodoviária Federal, onde já servia desde 1974 e eu na advocacia. Em Rondonópolis nasceram também meus filhos Letícia e Felipe e de lá saímos quando ingressei na magistratura em setembro de 1996.

Trabalhei nas Comarcas de Alta Floresta, Nobres, Poxoréo, Cáceres, Várzea Grande e Cuiabá, na maioria do tempo na área criminal. Embora não tenha optado pela carreira criminal, já que essa escolha cabe ao Tribunal, tive a certeza, em pouco tempo, que esta era a minha verdadeira vocação e minha missão nesta vida.

Durante boa parte da carreira convivi com a criminalidade violenta, essa que assalta, rouba, trafica e mata, às vezes por quase nada. Fui ameaçada várias vezes. Já passei noites sentada na cama, com pistola engatilhada, enquanto protegia meus filhos, que colocava para dormir no chão, temendo ataques durante a madrugada.

Depois, já em Várzea Grande, fui designada para trabalhar com essa mesma criminalidade, porém convivia com aqueles que já tinham enfrentado condenações. Foi onde conheci o sentido da matéria humana.

Para desenvolver meu trabalho com essas pessoas tinha que entrar nas cadeias, nos presídios. Vi o sofrimento dos que são depositados naqueles locais sem qualquer chance de ressocialização. Percebi que daquela forma não há mesmo como esperar que saiam pessoas melhores do que entraram. Vi famílias destruídas, filhos nascendo dentro de presídios, mulheres se prostituindo e sendo obrigadas a levar dentro dos seus corpos aparelhos celulares e muita droga para dentro das prisões.

Quando prestei serviços ao Conselho Nacional de Justiça em outros Estados, pude ver que esses problemas se refletem em todo país e percebi, também, que muitas pessoas presas são simplesmente cooptadas, por sua vulnerabilidade, por organizações criminosas, que cada vez mais poderosas dominam o mundo marginal, dentro e fora das prisões.

Em 2013 fui designada para jurisdicionar a 7ª Vara Criminal de Cuiabá. Depois de quase 20 (vinte) anos de carreira foi ali que compreendi como funcionava o sistema sórdido da corrupção, que se retroalimentava do sangue e do suor de todos nós.

Na 7ª Vara Criminal me deparei com a corrupção em todos os níveis, em todas as suas facetas e em todos os ângulos. Desde as menores práticas de corrupção, tão comuns no dia a dia dos brasileiros, como pequenas quantias ofertadas para escapar de blitz, até desvios multimilionários, tudo passava por ali.

Poucos órgãos ou segmentos sociais escaparam de denúncias. A educação, a saúde, a infraestrutura, os poderes legislativo, executivo e judiciário, tudo envolto em uma imensa teia em que a única regra é o enriquecimento à custa dos cofres públicos.

Por mais que eu e minha equipe nos esforçássemos, muito pouco podia ser feito. Processos imensos, volumosos, complexos, se acumulavam diariamente à espera de decisão. Muita coisa foi feita. Recuperamos quantias consideráveis em dinheiro e muitos bens pertencentes aos criminosos de colarinho branco foram sequestrados.     Prisões de grandes figuras do meio político acabaram servindo para desbaratar grandes organizações criminosas que há muito tempo saqueavam os cofres públicos.

Admirada por uns e odiada por outros, novamente sofri ameaças, desta vez duramente combativas pelo Comitê de Segurança Institucional do TJMT, então presidido pela honrada Desembargadora Maria Erotides Kneip.

Nesse combate aprendi, primeiramente, que aquela criminalidade violenta, sem controle, entregue às drogas e reféns da ausência estatal, só existe nas proporções atuais graças aos desmandos da nossa classe política, aos desvios que lhe retiram o direito à escola, ao trabalho formal, à saúde e às mínimas condições de exercício da cidadania.

Passei a angustiar-me com a impotência estatal de lutar contra esses criminosos sofisticados e compreendi que o sistema legal foi criado e estruturado com o único propósito de garantir-lhes a impunidade. Um sistema onde os prazos prescricionais são muito curtos, onde se garante foro privilegiado a grande número de cargos e onde os recursos são quase inesgotáveis não tem como funcionar.

Além disso, a imposição de um pensamento garantista que só enxerga direitos para quem comete crimes e se esquece dos direitos das vítimas e da sociedade, acaba por soterrar de vez qualquer esperança de se fazer justiça nesse país.

Para piorar, a celebração equivocada de acordos de colaboração premiada, com excesso de concessões por parte do Estado sem contrapartida à altura pelos criminosos enterra, de uma vez por todas, qualquer esperança de vencer essa criminalidade.

Vi que estamos à mercê de corruptos inescrupulosos e percebi que, se nada for feito para mudar essa situação, em breve estaremos vivenciando o caos total. Foi quando me cansei de reclamar e não agir. Percebi que a omissão dos bons pode ser ainda mais maléfica que as práticas criminosas dos demais. Decidi, então, aposentar-me da magistratura para colocar meu nome à disposição pelo PSL como pré-candidata ao Senado.

Fui eleita com Senadora pelo Estado de Mato Grosso com 678.542 votos. Agora tenho a oportunidade de trabalhar diretamente na mudança desta legislação que nos põe reféns da corrupção institucionalizada do Brasil. A corrupção não apenas desvia recursos públicos. Ela mata, por falta de hospitais. Mata por ausência de políticas públicas de inserção social.

É um mal silencioso, como um câncer social que precisa ser extirpado.

Que Deus nos abençoe neste mandato no Senado. Que este país renove por meio do voto consciente e cidadão de todos nós. Que todos saibamos que votar é mais que um dever, é um direito de cada um de nós e que somente desta forma teremos mudanças.

Avante Mato Grosso. Avante Brasil!

Senadora Selma Arruda

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